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ENTREVISTA Pedro Augusto Ticianel - Agro Serra. Por: Priscila Castro
Para muitas pessoas, o nome de Pedro Augusto Ticianel pode não chamar a atenção, mas quem está atento ao setor agroindustrial será capaz de lembrar que seu nome é sinônimo de vitória. Em 2006, sua empresa obteve um dos melhores índices de ocupação e produtividade. No ano de 2007, foi a primeira colocada na produção de álcool carburante, combustível renovável, no Norte e Nordeste do Brasil. Ticianel, sócio fundador da Agro Serra, é nosso entrevistado dessa edição e nos conta as razões que o levaram a entrar para a área de biocombustíveis. Ecoenergia - É verdade que começou sua vida no Paraná como trabalhador rural? Conte-nos sua trajetória desde o início até a abertura da Agro Serra. Ticianel - Sou de origem rurícola, neto de imigrantes italianos que chegaram com o sonho de fazer a vida na América, na condição de colonos. Casaram-se no norte do Paraná, paqra onde migraram com a família no início da década de 1920, quando nasci. Fui criado até os 14 anos num sítio de propriedade de meu pai, onde cultivava e colhia cana, milho, arroz, feijão, algodão, hortaliças e frutas, tudo de forma manual. No início da década de 1970, mudamos para a cidade de Bandeirantes. No município, trabalhei como engraxate; depois, ajudante de um depósito de cal, frentista, auxiliar de mecânico, almoxarifado e escritório. Prestei serviço militar em Brasília e ao voltar fui para Mato Grosso, ingressei na universidade, no curso de Engenharia Florestal. Posteriormente realizei alguns trabalhos na Venezuela. No início de 1984, fui convidado para realizar estudos nos Estados do Maranhão, Pará, Norte de Goiás, hoje Tocantins, e Sul do Piauí, para implantação de projeto agroindustrial. Aceitei o desafio, fizemos opção pela Região Sul do Maranhão, tendo me mudado para Balsas com quatro meses de casado, e onde fundamos a Agro Serra, empresa à qual tenho me dedicado ao longo desses últimos 25 anos. Ecoenergia - Fale-nos da principal atuação da Agro Serra, seus produtos e serviços. Ticianel - Somos uma agroindústria com planejamento estratégico de longo prazo e implantação modular, perseguindo um modelo integrado de produção, com forte valor agregado na base e excelência em termos de equilíbrio socioambiental. Prezamos a qualidade e acreditamos ter um bom histórico de trabalho e pioneirismo. A primeira lavoura de soja no Maranhão, acima de 1.000 hectares, foi nossa. Também saiu de nossos armazéns a maior parte da soja que carregou o primeiro navio exportado pelo Porto de São Luís. Nós fomos responsáveis pela maior contribuição para a autossuficiência do Maranhão em álcool carburante, alcançada no ano de 2005. O principal produto da Agro Serra é o álcool carburante, seguido da soja, mas produzimos também arroz de sequeiro, feijão, uva, café e peixes, em menor quantidade. Ecoenergia - Qual a principal preocupação da Agro Serra em relação à responsabilidade social e ao meio ambiente? Essa atitude gera retorno para a empresa? Ticianel - A Agro Serra, desde a sua fundação, há mais de 22 anos, trabalhou dando a todos os seus colaboradores idêntico tratamento. Somos precursores na região de pesquisa agrícola de ponta, em parceria com empresas e instituições como a Embrapa, a empresa CanaVialis, o Instituto Agronômico-IAC, a Universidade Federal de Alagoas-UFAL. Realizamos também trabalhos com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas-SEBRAE e órgãos de extensão universitária. Possuímos ações sociais na região nas áreas de educação, saúde, difusão de tecnologia, associações e cooperativas de produtores rurais, entre outros. Participamos, como parceiros, de prefeituras e associações de produtores. Atendemos centenas de moradores da região com cestas básicas, consultas médicas e medicamentos. A Agro Serra é destinatária da maior quantidade de terras particulares averbadas para reserva ambiental permanente no Estado do Maranhão com área superior a 70 mil hectares. É importante lembrar que, quando uma empresa compra os nossos produtos, eles estão associados a todas essas ações que temos praticado ao longo desses anos. São produtos que mantêm forte valor social e ambiental agregado. Ecoenergia - Como são as condições dos empregados rurais? Há uma preocupação da Agro Serra nesse sentido? Ticianel - Somos um dos melhores empregadores agroindustriais do país, afirmo sem nenhum receio de estar equivocado. Nós nos preocupamos com salários, direitos trabalhistas, alimentação, saúde, transporte, alojamentos, lazer e promoção funcional. Temos uma equipe de gestão comprometida com os nossos empregados, especialmente os rurais, composta por profissionais de várias áreas, que se dedicam 24 horas ao atendimento dos trabalhadores rurais da Agro Serra. Temos o Acordo Coletivo de Trabalho firmado com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Temos uma Ouvidoria permanente, conduzida por assistente social. Nunca tivemos um único caso de morte por exaustão no trabalho, e o índice de satisfação dos trabalhadores rurais com a empresa é superior a 90%. Ecoenergia - Como está o mercado atual do setor sucroalcooleiro em sua região comparado com o resto do país? Ticianel - Se considerarmos o mercado regional – Maranhão, Pará e Piauí - há um mercado demandador e importador. Temos uma pequena diferença de logística contra Goiás, hoje nosso maior concorrente. Não há novas unidades se instalando nesses três estados. A unidade mais próxima, em implantação, é a da multinacional Bunge, no estado do Tocantins. Precisamos aperfeiçoar nosso modelo de produção, com mais investimentos em irrigação e em pesquisas para desenvolvimento de variedades apropriadas às nossas condições de clima e solo. Nossa logística, no entanto, não é privilegiada, pois temos longas distâncias a percorrer e as estradas precisam de investimentos urgentes. A maior parte da produção atual é vendida por um sistema de precificação atrelado à Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”-ESALQ/São Paulo, mesmo índice utilizado no Centro/Sul, mais um diferencial de frete em relação ao mesmo álcool produzido em Goiás. Já os outros estados do Nordeste conseguem exportar mais álcool, fator que, associado ao custo de frete de Goiás e São Paulo para Fortaleza, Recife, Maceió, Natal, João Pessoa e Teresina, representa um preço entre R$100 a R$200 a mais por metro cúbico de álcool em relação ao nosso preço atingido. E, entre Goiás e a região tradicional produtora de cana do Nordeste, existe um hiato enorme de distância sem cana, que dificilmente será preenchido com a cultura por problemas climáticos e barreiras ambientais e outros fatores limitantes. Ecoenergia - É inegável que os biocombustíveis terão um papel crucial num futuro próximo. Como o Maranhão está se preparando para esse cenário, sendo o único estado Nordestino que não vive o drama da seca, uma vantagem competitiva em relação aos outros estados? Ticianel - Não é verdade, pois o Maranhão vive o drama da seca e das cheias, pois está localizado numa posição que favorece os dois fatores. O estado tem uma área territorial extensa e está localizado entre o semi-árido e o Norte. Temos municípios com índices de precipitação inferior a 1.000 mm anuais, com hiato de seca de até sete meses, o que é muito grave. Quanto à produção de biocombustível, a principal razão que faz com que o Maranhão não esteja na ponta desse processo é a ausência de elementos que a iniciativa privada necessita para investir. Os projetos sucroalcoleiros demandam grandes investimentos, com retorno em longo prazo, e seu sucesso depende de variáveis complexas. Com a Agro Serra, são quatro unidades operando no estado e algumas em estudo de implantação. Tenho percebido um esforço de todos os governos da região para atrair a iniciativa privada para investir no setor,especialmente o Maranhão. Particularmente, continuo apostando no potencial do Maranhão para a viabilidade de projetos sucroalcooleiros. Ecoenergia - Quais as expectativas da Agro Serra para a safra 2009? Ticianel - O setor continua dentro de um hiato de preços adverso, e a Agro Serra não poderia ter situação diferente. Preocupa a continuidade e a extensão dessa passagem, pois está gerando prejuízos e um desequilíbrio cumulativo que confl itam com o otimismo requerido para empreender. O lucro é o elemento propulsor do progresso e do crescimento, e a sua inexistência não é construtiva, com refl exos em toda a cadeia de produção. O setor sucroalcooleiro é um elo importante da economia nacional, e sua fragilidade gradual deve merecer urgente adoção de políticas de ajustes, sob pena de aumento continuado dos riscos até chegarmos a uma situação irreversível de aniquilamento,cuja recuperação poderá custar muito mais para o país, sob uma visão prospectiva. Entendo que esse reequilíbrio dentro da cadeia poderá acontecer com mais ações da iniciativa privada e com a participação do Governo, através dos instrumentos de que dispõe para regular mercados, que não é o subsídio direto ao produtor. Portanto, nossa expectativa é a de que haja uma melhor remuneração ao álcool carburante no menor lapso de tempo possível, necessidade que representa o anseio de todo o setor e não apenas o nosso. Temos uma capacidade enorme para responder rápido à produção, e talvez esteja aí nesse mérito o nosso problema. |
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