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MERCADO
Bloomberg - O impacto da crise financeira no setor Agrícola e de Biocombustíveis.
Por Thiago Terzi - Gestor de Negócios Agrícola, Biocombustível e Condições meteorológicas - Bloomberg - NY - USA


Humildade, essa foi a palavra mais utilizada para descrever o feeling do ambiente no Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça) no começo de 2009.

Historicamente calcado em princípios que normalmente favorecem um “consenso” político-econômico,em que o mercado predomina sobre o estado, com poucos controles governamentais e de livre circulação do comércio de mercadorias e capitais, esse fórum teve que reavaliar suas bases e retroceder sua ideologia de globalização.

Para quem ficou isolado durante 30 anos do resto do mundo e “voltou à ativa” em fevereiro de 2009, talvez o choque socioeconômico tivesse sido menos profundo.

Desemprego nas alturas, mercado financeiro em chamas, Roberto Carlos entregando rosas vermelhas, enfim, nada que o brasileiro já não tenha vivenciado antes, e com muito esmero, diga-se de passagem.

A questão que ainda não está muito clara é exatamente o que poderá substituir o antigo “regime” global.

Agora, temos um estado em ascensão, como investidor, regulador e como força econômica.

Faz seis meses que o “cardápio do dia” nas televisões americanas é o de retratar o estímulo aos gastos governamentais.

Mesmo sob a alegação de serem temporários e aguardando uma suposta recuperação econômica, tem-se a sensação de que o balanço entre o poder público sob o privado pode durar além do período supostamente de crise.

Ficou muito claro, após o colapso de várias corporações -- em especial as relacionadas ao setor Financeiro e Automobilítico --, que os governos estão direcionando parte do capital a setores específicos da economia: o governo americano vem recomprando dívidas de hipotecas imobiliárias e o britânico, assegurando a sobrevida da sua indústria automobilística.

Além do investimento em ativos hipotecários, recentemente o governo americano se tornou o mais novo proprietário majoritário de grandes corporações e bancos.

O governo americano é o mais recente proprietário de 78% da seguradora AIG, 60% da montadora General Motors e 34% do Citibank.

Tudo isso para salientar o extremo contraste dos debates em Davos em 2008, onde se discutia quão tolerável seria o aumento do interesse por parte de fundos soberanos para investimentos em bancos ocidentais.

Os fundos soberanos já não se fazem mais presentes, e o único fundo que os bancos estão recebendo atualmente é oriundo dos pacotes de estímulo.

Estamos passando por uma crise de confiança. O que acontece com a confiança do investidor quando tudo falha? As empresas falharam, os governos idem, sem contar os analistas, a mídia e nós mesmos.

Mas qual será o impacto dessa crise financeira no setor Agrícola e de Biocombustíveis?

A crise está efetivamente reduzindo a disponibilidade de crédito para os países de mercados emergentes e diminuindo a demanda por commodities, principal fonte de exportações da América Latina.

Além desse fator, a necessidade de cobertura de caixa em países cujas economias sempre fomentaram investimentos estrangeiros diretos acabara por reduzir esses investimentos em países emergentes, bem como a queda nas remessas de imigrantes, cujo destino está normalmente relacionado às áreas de baixa renda da América Latina.

Em relação ao setor Agrícola, historicamente esse tem sido menos impactado pela recessão do que outros.

Os motivos são a importância da exportação para esse setor bem como o gasto com alimentos que, na sua maioria, não são considerados produtos de luxo.

O setor Agrícola por natureza requer uma intensa utilização de capital.

Esse fator se agrava, pois a necessidade de capital gira em torno do calendário agrícola da cultura, ou seja, entre o plantio e a colheita.

A agricultura tem um cronograma a ser cumprido e, por mais que tentemos alterar esse quadro natural, a fisiologia da planta e sua ciclicalidade não esperam pacote econômico.

A disponibilidade de caixa determina o investimento na boa formação da cultura bem como no processo de colheita e pós-colheita.

Produtores e usineiros estão infelizmente a mercê do mercado. Um limitado acesso a recursos financeiros e a falta de um caixa mais sólido (que poderia permitir um melhor posicionamento no momento da venda) acabam por torná-los reféns dos compradores.

No caso dos Bancos, a preocupação principal não necessariamente é o acesso ao capital, mas sim à lucratividade do setor em meio à redução da demanda mundial e queda abrupta dos preços de commodities agrícolas.

A queda no volume de negociações de commodities (mercados futuros) bem como uma maior regulamentação das transações no mercado futuros serão fatores que certamente serão abordados este ano, podendo reduzir o apetite do especulador que, de uma forma ou outra, era um grande gerador de liquidez.

Bons tempos!

Associado a esse fato, existe a possibilidade de um aumento nos custos dos insumos e no aluguel da terra, o que geraria um aumento no custo operacional necessário para rodar uma propriedade ou usina.

As consequências da crise são bem sérias com relação ao futuro de alguns setores.

No caso do biocombustível, a falta de continuidade de investimento no setor desde o inicio da crise financeira, ao final de 2008, reduziu drasticamente o número de novos projetos e mesmo a expansão de usinas já em operação.

O tempo de construção de uma nova usina está em torno de três anos. Com uma constante demanda de álcool, advinda das políticas de substituição de derivados de petróleo por renováveis nos EUA e Europa para os próximos anos, pode-se esperar uma potencial pressão nos preços de álcool internacionais, bem como de suas matérias-primas.

Vale ressaltar ainda que a falta de investimento no canavial e na indústria aliada a uma crescente demanda mundial por biocombustíveis são fatores bastante agravantes. Alguns fatores que poderiam auxiliar o mercado de álcool brasileiro são: um possível fortalecimento do dólar; o petróleo acima dos USD 50.00, fato que já está se tornando uma realidade; redução dos estoques de milho americano, o que pressionaria ainda mais o preço da matéria-prima; e, por fim, uma possível rediscussão da tarifa de importação americana de álcool devido a uma abertura do discurso do recém-empossado presidente americano, Barack Obama, a assuntos relacionados a mudanças climáticas e mercado de emissões.

A crise pode e poderá gerar oportunidades únicas ao permitir que empresas sob um regime de falência, ou a beira de, sejam compradas por valores outroura impensáveis ,criando um Mercado mais enxuto e eficiente. Resta ver.

Foi o caso da Valero ao comprar a VeraSun por quase USD 500 milhões. Esse custo equivale a 50 cts/galão contra um preço de álcool spot, na época, de USD 1.50/galão.

Uma pechincha! Ao adquirir os ativos da VeraSun, a Valero não só se estabeleceu como produtora no maior mercado consumidor de energia do mundo, mas também teve acesso a um pool de usinas novas, consideradas altamente eficientes sob o ponto de vista de custo e tecnologia, o que lhe confere uma grande vantagem competitiva.

Outras empresas americanas seguiram o mesmo passo, aproveitando o desespero de muitos e engolfando ativos que outrora se pagavam em um ano.

Imagino que no Brasil não será muito diferente.

O market share das usinas no Brasil ainda esta muito pulverizado e a crise pode criar três tipos de oportunidade:
  • Bancos assumindo o controle de usinas e repassando ao mercado;
  • Empresas de energia abrindo mão de investir na construção de usinas próprias em detrimento de oportunidades de compra direta no setor;
  • Usinas de capital sólido e avantajado que, no período pré-recessão, o teriam utilizado para expandir seu próprio parque, mas que, devido à situação corrente, acabariam por adquirir uma outra usina em situação financeira periclitante.
Apesar do momento em que vivemos, o mercado agrícola dentro do setor de commodities e mesmo comparado aos outros bens de investimento, como ações e renda fixa, tornase um produto interessante. O setor depende muito mais de fatores tangíveis e fundamentais, como acesso a capital, acesso à terra e a insumos e impacto do clima, do que qualquer outro produto disponível. Além dessas características inerentes, é com esse mercado que abastecemos as mesas e os carros do mundo.

É claro que o consumidor, quando necessário, fará substituições, e o bife de ontem muito possivelmente será o frango de amanhã.

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