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LOGÍSTICA
A cadeia logística do álcool na região Sudeste.

O transporte é uma das principais funções logísticas e representa a maior parcela dos custos logísticos na maioria das organizações. Do ponto de vista de custos, corresponde, em média, a 60% das despesas logísticas. Além disso, o transporte tem um papel preponderante na qualidade dos serviços logísticos, pois afeta diretamente o tempo de entrega, a confiabilidade e a segurança dos produtos.
Administrar o transporte significa tomar decisões. Essas decisões podem ser classificadas em dois grandes grupos: estratégicas e operacionais. As decisões estratégicas se caracterizam pelos impactos de longo prazo e se referem basicamente a aspectos estruturais; já as decisões operacionais são geralmente de curto prazo e se referem às tarefas diárias dos responsáveis pelo transporte, sendo basicamente duas as principais decisões: a escolha de modais e a seleção de transportadores. A maioria dos gestores de logística trata a escolha do modal relacionando alguns atributos para guiar o processo de decisão e trabalha na elaboração de modelos utilizando ferramentas que possam dar ao tomador de decisão instrumentos para uma escolha racional da modalidade ou das combinações de modais.
Cada modal possui custos e características próprias, que o tornam adequado ou inadequado a certos tipos de operações. A busca de alternativas de uso dos modais de menores custos unitários, como o ferroviário e o aquaviário, por exemplo, é um dos principais assuntos atualmente nas agendas dos executivos de logística. As análises e as decisões na utilização de modais buscam o modelo conceitual da matriz de transportes, ilustrado no gráfico, na figura 1. Neste artigo, trataremos, mais especificamente, da cadeia logística do álcool carburante na região Sudeste, levando em consideração a crescente mudança do papel do modal ferroviário no mercado doméstico desse produto. No Brasil, particularmente na região Sudeste, observamos a existência das infraestruturas rodoviária, ferroviária, aquaviária (hidrovia Tiete/Paraná) e dutoviária (polidutos e dutos) para o transporte de combustíveis. Nesse contexto, a logística do álcool é fundamental na formação dos preços desse produto no mercado brasileiro. Na página seguinte, são apresentadas as duas logísticas mais utilizadas na distribuição dos alcoóis para o consumo interno na região Sudeste do território brasileiro. A alternativa 1 ilustrada pelas setas azuis combina e utiliza os modais rodoviário, ferroviário e dutoviário; já a alternativa 2, representada pela seta verde, utiliza apenas o modal rodoviário.

Conforme demonstrado na figura acima, o suprimento inicia-se na coleta de álcool nas usinas localizadas no interior. Em seguida, essa coleta direciona-se para centros coletores distantes dos grandes centros urbanos mas próximos às ferrovias. Essa proximidade possibilita o uso do modal de menor custo, o ferroviário. Tais centros coletores capacitados para operarem pelo modal ferroviário viabilizam a transferência do álcool até outros centros coletores localizados no município de Paulínia e, portanto, próximos ao grande mercado consumidor: Grande São Paulo e cidades vizinhas. As ferrovias exercem papel muito relevante nos fluxos de transferência de alcoóis entre os terminais, pois alavancam os sistemas da cadeia logística de suprimento. Esse modal é o mais adequado para movimentar os produtos em médias e grandes distâncias, porque transporta os produtos para um terminal mais próximo da demanda na forma mais consolidada possível. Por essa razão, as distribuidoras de combustíveis empenham-se em construir suas instalações próximas aos traçados das ferrovias.
O transporte de álcool combustível para o mercado interno brasileiro através dos modais de menores custos unitários, como o ferroviário, vem crescendo significativamente nos últimos dois anos nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, apontando a retomada da operação plena desse modal. Atualmente, nessas regiões, existem duas ferrovias: a América Latina Logística (ALL) e a Ferrovia Centro Atlântico (FCA), que ao longo dos últimos anos aumentaram significativamente o transporte de alcoóis nas suas malhas. A figura abaixo apresenta os principais corredores das malhas para transporte de combustíveis do modal ferroviário na região Sudeste.

As ferrovias ALL, nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, desenvolveram e implementaram, nesses últimos dois anos, quase uma dezena de fluxos (rotas) com origens em Andradina, Araçatuba, São José do Rio Preto, Tutóia, Pradópolis, Bauru, Uberaba, Uberlândia, Ribeirão Preto, Alto Taquari, todas com destino a Paulínia e Betim. Em 2006, na ALL foram transportados, na respectiva malha sudeste com destino a Paulínia, aproximadamente 100.000 m³, que correspondem a cerca de 8.000 m³/mês. Em 2007, foi mantido o rescimento com 150.000 m³ e, em 2008, aumentou o transporte vertiginosamente, atingindo o patamar de 570.000 m³/ano. Para 2009, mantém-se o viés de crescimento, devendo o volume transportado em 2008 dobrar e alcançar o volume anual de 1 milhão de m³, ou seja, 82 mil m³/mês. A evolução do crescimento desse volume está ilustrada no gráfico a seguir.

Já a FCA desenvolveu e implementou quatro fluxos (rotas), com origens em Ribeirão Preto, Uberlândia, Uberaba e Usina das Pedras, com destino a Paulínia e Betim, devendo atingir em 2009 o volume de 380.000 m³. Até o final de 2006, no entanto, quase a totalidade desse etanol foi transportada por caminhões em todo o trajeto entre as usinas e os grandes centros urbanos (alternativa 2), deixando ociosas tanto a infraestrutura logística disponível no modal ferroviário como boa parte dos centros coletores. Embora a utilização do modal ferroviário tenha se expandido com as novas rotas, o modal rodoviário ainda se mantém presente na atividade de distribuição, sendo o modal de maior participação na matriz de transporte. Quase todas as coletas nas usinas são feitas por caminhão. Especialmente no estado de São Paulo, a malha rodoviária é bem desenvolvida, com várias rodovias, o que possibilita a competitividade desse modal com os outros modais. A fi gura ao lado ilustra as principais rodovias e corredores de fluxos no estado de São Paulo utilizados no transporte de combustíveis e alcoóis. Curiosamente, apesar do crescimento do modal ferroviário e da presença competitiva do modal rodoviário no setor de combustíveis, verificam-se alguns estudos e projetos para a construção de alcooldutos para atender a essas áreas de influência e aos mercados interno e externo.

Diante da progressiva inserção do Brasil nos cenários político e econômico mundiais e de sua inegável competitividade no mercado do etanol, é compreensível que se queiram evitar ou diminuir os gargalos que hoje existem no escoamento da produção de muitos produtos brasileiros. É verdade que com a construção dos alcooldutos milhares de caminhões serão retirados das estradas. Vale lembrar, entretanto, que a opção pelo rodoviarismo no Brasil, feita há mais de 50 anos, à custa da escassez e da ociosidade da infraestrutura ferroviária, já custou ao país a dificuldade de distribuição. Hoje, com a ampliação dos investimentos nas malhas ferroviárias e com a produtividade crescente desse modal, muitos desses obstáculos estão sendo superados. É saudável que o Brasil diversifique as opções de modais, construindo alcooldutos. Uma variedade de modais integrados entre si é excelente para o país, pois a diversificação de modais permite aos gestores de logística um leque maior de possibilidades, que podem ampliar as oportunidades de negócio, facilitar a diminuição nos custos logísticos das empresas e tornar as decisões mais acertadas.




José Luiz Portela Gómez
Gestor/Líder da Área de
Transportes do Petróleo Ipiranga


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