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Mudanças climáticas e fontes renováveis de energia
Escolhas do passado e opções de futuro.


Em estudo recente divulgado pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) indicou que os impactos do aquecimento global podem ser dramáticos. Apesar de haver diferenças entre as conseqüências de longo prazo apontadas, de acordo com os modelos climáticos aplicados e segundo a literatura, é recorrente a idéia de que já passamos do ponto de reversibilidade e que as estratégias de redução de emissão e de adaptação devem ser aceleradas e aprofundadas conjuntamente entre os países, com o objetivo de reduzir o ritmo do aquecimento global, preparando as regiões e as populações mais propensas aos eventos climáticos extremos. Desse debate emergem questões relativas às escolhas entre o desenvolvimento econômico do passado e as opções de futuro das nações.
Hoje, o Brasil se coloca em posição privilegiada perante os demais países, tendo uma janela de oportunidade para debater e propor soluções conjuntas, sendo, ainda, referência no contexto das suas escolhas passadas de aproveitamento energético, uma vez que o nosso país tem uma matriz energética renovável de 45,9% (oferta interna de energia), enquanto a média mundial é de 12,9%. O Brasil possui, ainda, um perfil de aproveitamento elétrico diferenciado, tendo alta participação de origem hidráulica na oferta interna, sendo de 72,6% (acima de 30 MW), segundo o Balanço Energético Nacional (BEN), ao passo que o mundo não ultrapassa 16% de participação. Cabe observar uma maior busca pela diversificação da matriz de geração de eletricidade, por meio de um aumento da participação de fontes renováveis, particularmente a eólica.
Em relação à biomassa, é clara a expertise nacional, tendo em vista a implantação do maior programa de biomassa líquida do mundo, sendo o Brasil hoje o segundo maior produtor mundial de etanol, com 28 bilhões de litros (2008). Internamente, os produtos da cana-de-açúcar já assumiram, em 2007, o 20º lugar na participação na estrutura de oferta interna de energia, atrás apenas do petróleo e de seus derivados.
Relativamente às escolhas energéticas, nossa rota de desenvolvimento não foi pautada unicamente pelo combustível fóssil, mesmo considerando nossa industrialização tardia, diferentemente dos países desenvolvidos, que historicamente basearam seu desenvolvimento econômico apoiados em combustíveis poluentes. Soma-se, ainda, que as atividades econômicas associadas ao desmatamento, principal componente da participação das emissões do Brasil, como a mudança do uso da terra na Amazônia e nos Cerrados (pecuária, soja, madeira, entre outros), respondem por aproximadamente 1% do PIB brasileiro. Sob essa leitura, considerável parte das emissões não está associada ao crescimento econômico, ao contrário de outros países como China e Índia.
Sejam quais forem as opções de futuro, elas devem ser permeadas pelo conceito ético de que as gerações futuras não devem ser penalizadas pelas nossas escolhas presentes, obrigando-nos a refletir e agir em prol de uma nova trajetória. Em caso contrário, a experiência humana relegará às próximas gerações um planeta indiscutivelmente mais degradado em termos ambientais, tendo como conseqüência um maior acirramento das questões sociais.
As fontes renováveis de energia fazem parte, obrigatoriamente, da rota energética necessária para reduzirmos a pressão sobre o ecossistema, tendo em vista as relações entre o consumo de energia fóssil e suas contribuições no agravamento dos processos de mudanças climáticas. O desenvolvimento dos produtos da cana-de-açúcar foi uma exitosa ação nessa direção, na qual o investimento em tecnologia e o desenvolvimento foram determinantes para elevarmos a eficiência de rendimento do insumo (relação entre energia final e útil), como ocorreu nos últimos 20 anos no Brasil, quando os produtos da cana-de-açúcar aumentaram seu rendimento energético de 65% para 77% entre os anos de 1984 e 2004. Além da primeira geração de etanol, produzido diretamente da cana-de-açúcar, hoje se desenvolve no Brasil a segunda geração, que utiliza resíduos agrícolas e agroindustriais na produção. Essa segunda geração possui o potencial de duplicar a produção de etanol sem expandir a área cultivada, hoje em cerca de 1% do país.
O aumento da temperatura do planeta, estimado de 2º C a 6º C para os próximos cem anos, resultará em severas conseqüências, não se limitando à esfera ambiental, mas também econômica e social. Por outro lado, os impactos das mudanças climáticas não são distribuídos de forma uniforme entre regiões e populações, considerando ainda que a vulnerabilidade climática possa variar em magnitude e intensidade de acordo com a localização geográfica, o tempo, as condições sociais, bem como econômicas e ambientais, além da infraestrutura local.
A Conferência do Clima em Copenhague (Dinamarca), em dezembro de 2009, pode ser uma oportunidade para que os países em desenvolvimento coloquem suas posições e reivindiquem austeridade ambiental àqueles que, segundo a Agência Internacional de Energia, ainda hoje estão entre os maiores países emissores per capita, como EUA, Rússia, Alemanha, Reino Unido, entre outros. Adicionalmente, pode permitir que sejam disponibilizados fundos para a promoção do desenvolvimento tecnológico, com o intuito de descarbonização dos sistemas produtivos e de consumo, aliada a medidas adaptativas para as populações mais vulneráveis.
Por fim, as opções globais de desenvolvimento devem ser pautadas por escolhas energéticas renováveis. Rotas tecnológicas com baixa intensidade de carbono são possíveis. Outro futuro é possível. As escolhas de hoje regerão nosso futuro. As cartas estão na mesa!

Carlos Henrique Duarte
é mestre em Engenharia Elétrica, Doutorando
em Planejamento Energético
(COPPE/UFRJ) e Analista Sênior da
ASM Ambiental.

Marcio Giannini Pereira
é economista, Mestre e Doutorando em
Planejamento Energético (COPPE/UFRJ).


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