NEGÓCIO
Só os pacientes colhem o fruto maduro.
O negócio cana-de-açúcar ganhou notoriedade face ao formidável balanço energético dessa gramínea, que carrega as fibras com o caldo açucarado, com custos de produção que competem com os derivados do petróleo quando este tem preços de US$ 40 por barril. É uma constatação internacional, que, das mais variadas fontes, aponta a cultura canavieira como aquela que se diferencia das demais, na chamada atual 1º geração de biocombustíveis, graças a alguns, entre outros, componentes essenciais:
- Ciclo de vida (energia) excepcional, em comparação com as culturas concorrentes, gerando cerca de 10 unidades de energia por unidade consumida de energia fóssil;
- Excelente capacidade de adaptação em termos de clima e solos;
- Imenso espaço a ser trabalhado geneticamente para aumentar em muito o seu atual potencial produtivo;
- Boa estruturação de P&D e de formação profissional nas universidades e entidades brasileiras;
- Conhecimento da cadeia produtiva e de seus diferentes agentes, sejam nacionais ou internacionais;
- Produtora de carboidratos de baixo custo, abrindo um enorme leque de oportunidades para a área química nacional e internacional;
- Excelente posição operacional como agricultura sustentável, seja defendendo o solo da erosão, combatendo pragas com inimigos naturais ou usando resíduos da produção como fonte de nutrientes e matéria orgânica para os solos;
- Possibilidades de produção de alimentos na mesma área produtiva;
- Flexibilidade de fábrica, que permite produzir mais ou menos açúcar ou etanol, além de ser autossuficiente em energia e exportadora de energia.
A verdade é que a euforia das oportunidades da agroenergia, com crescimento de 2 dígitos ao ano no Brasil e no exterior, levou a uma sobrecarga de oferta/ano tanto no Brasil como nos EUA, em um mercado internacional que se manteve fechado. Seria isso para o Brasil um fator extremamente relevante ou uma saída para a rua sem saída dos preços mais baixos (na média) da gasolina administrados pelo governo federal (Petrobras)? Além dessa questão, sendo o Brasil riquíssimo em recursos naturais e relativamente pobre em capital, como manter alta a taxa de crescimento?
Essas questões vitais apontam para a grande oportunidade brasileira no agronegócio energético, mas qualificamos aspectos chave das dificuldades atuais de curto prazo.
Por um lado, os ganhos de produtividade da pecuária brasileira liberam cerca de, pelo menos, 2 milhões de hectares/ano nos próximos 10 anos, ou seja, a agroenergia recuperará áreas para agricultura ao invés de usar novas áreas. Cada milhão de hectares com cana significa 40 novas usinas moendo 2 milhões de toneladas cada, individualmente iluminando uma cidade de 100.000 habitantes por todo o ano, além da oferta de 180 milhões de litros de etanol ou, em fábrica flexível, cerca de 85 milhões de litros de etanol e 135.000 toneladas de açúcar. Em síntese, espaço não é o problema!
O que o mercado internacional aponta é que o crescimento da demanda internacional de açúcar pede um volume adicional de canas brasileiras (análise da LMC Internacional) de 11 milhões de toneladas/safra. Ao se olhar o crescimento da oferta dos últimos anos, entre 30 a 40 milhões de toneladas/ano no Centro-Sul brasileiro, ter-se-ia um potencial de crescimento de oferta de etanol (subtraídos as 11 milhões de toneladas que iniciam para atender ao mercado internacional crescente) entre 1,5 a 2,5 bilhões de litros/ano, que, no melhor caso, atenderia apenas ao crescimento do mercado interno brasileiro para o etanol.
Esse exemplo mostra que os momentos vão mudando mas as tendências seguirão os focos principais que estarão acompanhando o século XXI – mudanças climáticas e seguranças energética e alimentar. São estes os focos que devem gerar as soluções às questões apresentadas:
- Na medida em que as pressões internacionais levam a metas de redução das emissões dos gases do efeito estufa, as opções reais de curto/médio prazos, além da eficiência energética fundamental, são os renováveis agroenergéticos e eólica e a energia nuclear fóssil, a espera de rupturas tecnológicas que ainda não surgem na visão de 20 anos. O setor de transportes carrega o maior efeito de emissões, o que faz dos biocombustíveis e dos motores híbridos as grandes sensações! Isso leva o analista a prever crescimento de importações de etanol pelos países ricos e outros nem tanto, mas grandes emissores de CO2, o que geraria um preço etanol internacional pagando um prêmio sobre a gasolina.
- Na medida em que a valorização do etanol ocorre em mercado, os investimentos acontecem, até com maior presença do capital externo, seja em parceria com capital nacional ou por posicionamento individual. É justamente a soma do mercado demandante e da competência de custos que desenha as perspectivas tão positivas do Brasil canavieiro.
Mas é sempre importante lembrar: o processo de consolidação não gera expansão...os projetos greenfield, sim!!
Repetindo Victor Hugo, tantas vezes quanto ainda se repetirá, “nada melhor do uma boa idéia que encontrou o seu tempo”.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho
é engenheiro agrônomo e diretor da Canaplan
e da Usina Alto Alegre, vice-presidente
da ABAG
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